Inrodução e capítulo 1
Da porta entreaberta um feixe de luz. Paradas as imagens apenas entrevistas, como
se eu pudesse apenas entreve-las.
Frações de objetos ou cenas são o bastante para essa mente ansiosa por
conceitos, defini-las de modo cabal.
Pedaço de parede é a parede inteira à frente da minha porta. Rabo de gato é o gato que languidamente
espoja-se frente a essa mesma porta.
As frações da minha vida insistem em embaralhar-se num confuso
quebra- cabeça em que, suspeito faltem-lhe peças, ainda que sequer metade do
mesmo haja se completado. Nada mais natural para uma mente farta em recursos
viciosos que nutrir um prazer sorrateiro de boicotar-se, ou boicotar-me, pois me
parece que eu e minha mente formamos uma unidade, imbuídas que estamos na
febril tarefa de ocupar-se do inútil, do irresoluto.
Essa história nasce de uma porta que se entreabre sugerindo
uma pré-visão da morte. E necessário
cumpri-la ainda que não saiba o que de tão importante há que contar. Histórias são feitas de fatos, imagens ,
palavras, memórias, lampejos e inspirações súbitas, creio. Aqui não sei o que há, a não ser certa coisa
tão insubstancial que absolutamente não me deixa minimamente segura quanto à
sua consubstanciação num livro, ou numa narrativa curta que seja.
Assim caro leitor, antes que você mesmo exista para mim, devo dizer que simplesmente escrevo até onde possa e a mim, apenas a mim, dedico esse esforço literário, talvez até inútil, que me nutre, no momento, de uma emoção especial. Um “revive”, certamente, de alguns outros momentos inspirados da pretensa escritora poetisa da adolescência.
Assim caro leitor, antes que você mesmo exista para mim, devo dizer que simplesmente escrevo até onde possa e a mim, apenas a mim, dedico esse esforço literário, talvez até inútil, que me nutre, no momento, de uma emoção especial. Um “revive”, certamente, de alguns outros momentos inspirados da pretensa escritora poetisa da adolescência.
1.
Fragmentos de lamentos
Eu havia escrito aos nove anos uma redação que intitule, então, “Dilema”.
Não sei e não me lembro de saber em algum tempo a fonte de
onde aprendi esse termo, mas ele e a redação que então compus eram plenos de um
clamor por respostas em relação à existência,
na proporção, talvez, máxima do que meus nove anos podiam depreender das
questões filosóficas e existenciais residentes nos dilemas da vida.
Fato é que a professora não me deu crédito de autoria e
anulou meu esforço, minha ousadia, eu que recebia as melhores notas nessa
matéria e lia minhas redações orgulhosamente em público fui rebaixada à
condição de fraude. Será que daí nasceu esse sentimento que me acompanha e atormenta limitando-me
sobremaneira, de ser uma fraude completa?
De qualquer forma, qual é a importância disso hoje? Por que me vem? Será que estou tão carente de auto- valor que
tenho que desenterrar velhas injustiças para justificar meu auto desencanto?
Estou escrevendo ainda, isso consegue ser importante, mesmo
que o próximo caractere possa ser o último realizado.
Em que momento me esvazio e esvai-se minha energia? Isso me angustia. Não quero parar, quero conseguir dessa vez...
mais uma vez, só dessa vez, vida.
Vai ser penoso; cada palavra podendo ser a última. Se me levantar talvez não volte, se voltar
talvez feche essa página para sempre.
Não posso ver alguém deleitando-se com esses lamentos,
tormentos talvez estúpidos. E é isso,
entretanto, que nesse momento tenho a oferecer.
Pode vir a ser mais? Certamente
que sim.
Continue, digo a mim mesmo, sem pretensões nem
certezas. A vida não é mais que isso,
segue-se não se sabe para onde e por quanto tempo, se há onde, se há tempo, se,
se, se.
Tenho que escrever em capítulos curtos, para garantir a sensação de terminalidade, ainda que parcial. Encerro, assim, o primeiro capítulo. O primeiro pedaço de parede, a primeira fração de um rabo de gato.
Tenho que escrever em capítulos curtos, para garantir a sensação de terminalidade, ainda que parcial. Encerro, assim, o primeiro capítulo. O primeiro pedaço de parede, a primeira fração de um rabo de gato.
Capítulo 2.
Após o levantar-se, aqui retorno, cerca de dezoito meses depois. Uma breve revisão não me deixa a sensação de desconforto com o que se constituiu no primeiro capítulo disso. "Disso"? poderia-se questionar, que forma de referir-se a isto, mas haveria outra forma de referir-se ao que não se quer definir? Não porque seja especialmente complexo, mas porque pode vir a ser incompleto o suficiente para não se definir como livro, conto, poesia, crônica. O mais provável é que venham a ser notas.
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